
foto Alfred Stieglitz
Me chamo Salvador Esteban de Jimenez, sou o que por aqui costumam apelidar de o justiceiro de Deus, o Inefável. Sou seu melhor escudeiro, o mais valoroso, tão importante que às vezes tenho vontade de me deixar matar só para voltar a me encontrar com Ele.
Meu ofício é verter o sangue do peito dos esconjurados, cornos irresolutos, fracos e impotentes, à bala ou através do meu florete preciso e incomparável. Nos momentos que não sou chamado para extinguir dessas pousadas os amores-próprios, suas tolices e as costumeiras vaidades, me dedico ao beletrismo de maneira mais inocente que nos duelos, que sempre me exigem um pouco mais de esforço para redesenhar monstruosidades em formas de caridades. Contudo posso garantir que o meu trabalho é muito eficiente, melhor que nas belas artes, por isso sou convocado por Ele quando é preciso prescrever o bem e interditar o passado.
Meu receituário é simples. Na algaravia dos sentimentos confio apenas no que é sólido ou mais resistente, de tal sorte que freqüentemente são os vacilantes quem sucumbem para eu seguir adiante na minha faina de extirpar os outros tremores que sobram. Por isso àqueles que cambaleiam suplico que não me encarem, sequer pensem em mim, se não quiserem resolver as dúvidas que não logram esclarecer por timidez ou falta de coragem. Não me considero um pecador, mas um justo, o que não permite que o recheio das vontades escape através de reparações inúteis por mulher ou amantes, mãe ou filho, filha ou pai, e toda essa cadeia estúpida de sustentáculos. Quando alguém é feliz, é feliz sem remorsos, independente das dissensões que lhe são jogadas na cara, porque o fútil é cem vezes pior que o miserável, mais culpável porque só se ofende com palavras e nunca com a verdade. E a verdade para mim é uma só: as imperfeições do mal são as perfeições do bem, na família ou fora dela. Portanto carecem de defesas os que se deixam amargurar pelas paixões ou momentâneos estremecimentos; e honestamente, por tudo que tenho visto por aqui, afirmo que são os costumes que variam no tempo que imputam seus sins e nãos as coisas que consideramos ofensas. Por isso eu, Salvador Esteban de Jimenez, não desapareço enquanto houver alguém disposto a combater o tempo com melancolia ou fátuo sofrimento, justificando-se como cornos, bastardos ou românticos baratos, pois meu ofício não é contra os costumes, mas fazer com que esses cabrões se adaptem a eles.
No fundo meu trabalho faz com que todos entendam que ninguém pertence a ninguém, só a Deus ou quando muito a si mesmos, porque a verdadeira coragem nesse pedaço de mundo reside em amar sem desculpas ao que se opõem como desígnio ou perfeição, sempre com precaução pelos instantes que cedo ou tarde desaparecem, pois eu mesmo nasci de algo assim, de uma luxúria fingida e que me garante a certeza dessa sentença.
Minha mãe chorava no meio da rua e meu pai fornicava outra mulherinha, enquanto eu escapava do bicho-cabeludo que habita entre as pernas de todas as fêmeas. Nem por isso sou infeliz nem minha mãe uma rameira. Simplesmente meu pai se despediu das suas curvas, das antigas delicias para ir morrer noutra boquinha pedindo beijos, beijos novinhos de uma viuvinha mais destemida, sem cinzas no coração que só envelhecem como minha mãe e seu contumaz desabrasamento. Sendo assim, e diante dessa situação, a perspectiva do meu futuro se transformou radicalmente, e apesar de, inicialmente, ter vindo parar aqui no susto, logo me adaptei a nova visão e consegui entender que a minha transformação era também uma forma de ampliação. De novos horizontes, novos adestramentos para arquitetar planos, compromissos e prazeres.
Por isso hoje sou o mais solicitado desse ayuntamiento para livrar as gentes dos seus injustificados padecimentos. Não há nas imediações alguém mais livre e mais graduado para vencer os vestígios das ilusões que insistem rondar esses terrenos. Portanto, muito cuidado para não transformarem suas vontades em infortúnios ocultos ou falsas recompensas. Basta que me fitem desconfiados ou cagados de medo que eu diferencio muito bem os inquietos dos tementes. Jamais duvidem disso, pois, quando vocês dobram a esquina ou saem dos conventos, lá sempre estarei, alegre, falante e com as ferramentas entre os dedos que certamente irão lhes salvar dos seus desterros.
Eu, Salvador Esteban de Jimenez, firmo, dato e dou fé.
Igreja de San Agustín, Valladolid, 1813.
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