
foto Jerry Uelsmann
Noite de insetos elétricos, insubmissos, de raças errantes migrando entre o fim e o reinício dos dias, em ondas que se dilatam e arrebentam dentro do que nos conserva e nos mantém, franzinos, como sílabas caídas de um alfabeto roto. Num abismo que é outro abismo, mais alto e reservado aos que queimam por dentro e não basta. Porque falta a coragem em seu estado mais sublime, que é do enfrentar o tempo com um ruído idêntico ao do universo que se desgarra e só cola quando as asas para seguir avançando se descolam.
E para se ir adiante é necessário decifrar a relojoaria erótica que repousa nas tardes de domingo, no alaranjado poroso de uma tangerina, nos pés de uma mulher descalça. Pela magia dos seus traçados ou porque se entreviu o contorno dos desejos que vêm depois, numa geometria cujo engenho é não deixar nada aquietado, num movimento explosivo de coisas desdobrando-se em cenários, cheiros e gentes dentro da gente.
Essa multiplicação fantástica que desampara o solitário e abrange quem não se encerrou em arquivos sempre esteve por aqui, desde o princípio, como a luz, mas por algum motivo alguns preferem chamá-la de memória, outros de olvido.
Contudo, se em alguém há um vazio e ele é habitado por palavras que se acabaram ou imagens de fastio, só pensar não inunda a vida que vai sumindo. Melhor seria vomitar em partes; primeiro os dejetos dos vocábulos, depois os álbuns de sílex. Entreabrindo-se até o fêmur e ordenando que lhe arranquem a pele e lhe comam o fígado. Junto com o soluço das noites mal dormidas e o desgosto por saberem-se esquecidos. E já sem invólucro e ao relento, fora da torre onde se mantinham vivos, melhor deixar que os insetos devorarem os restos daquilo que chamavam de abrigo.
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