sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Paráfrase Do Oblívio


foto Jerry Uelsmann

Noite de insetos elétricos, insubmissos, de raças errantes migrando entre o fim e o reinício dos dias, em ondas que se dilatam e arrebentam dentro do que nos conserva e nos mantém, franzinos, como sílabas caídas de um alfabeto roto. Num abismo que é outro abismo, mais alto e reservado aos que queimam por dentro e não basta. Porque falta a coragem em seu estado mais sublime, que é do enfrentar o tempo com um ruído idêntico ao do universo que se desgarra e só cola quando as asas para seguir avançando se descolam.

E para se ir adiante é necessário decifrar a relojoaria erótica que repousa nas tardes de domingo, no alaranjado poroso de uma tangerina, nos pés de uma mulher descalça. Pela magia dos seus traçados ou porque se entreviu o contorno dos desejos que vêm depois, numa geometria cujo engenho é não deixar nada aquietado, num movimento explosivo de coisas desdobrando-se em cenários, cheiros e gentes dentro da gente.

Essa multiplicação fantástica que desampara o solitário e abrange quem não se encerrou em arquivos sempre esteve por aqui, desde o princípio, como a luz, mas por algum motivo alguns preferem chamá-la de memória, outros de olvido.

Contudo, se em alguém há um vazio e ele é habitado por palavras que se acabaram ou imagens de fastio, só pensar não inunda a vida que vai sumindo. Melhor seria vomitar em partes; primeiro os dejetos dos vocábulos, depois os álbuns de sílex. Entreabrindo-se até o fêmur e ordenando que lhe arranquem a pele e lhe comam o fígado. Junto com o soluço das noites mal dormidas e o desgosto por saberem-se esquecidos. E já sem invólucro e ao relento, fora da torre onde se mantinham vivos, melhor deixar que os insetos devorarem os restos daquilo que chamavam de abrigo.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Recesso Íntimo


foto Dorota Pawilowsk

É preciso aproveitar a fresta, a aba, o céu tão baixo e as formigas. Isso, as formigas. Nos seus reclamos e haveres. Ocupar-se das trilhas onde se firma o amor, encomendar tempos permeáveis e se expor. Não sitiar nenhuma parte e construir uma lei nova, uma regra olfatosa entre corredores que o outro consumiu nas leis que se extinguiram. Mudar as trancas da porta, os segredos, e neles não se bastar. Ir, não depender da sorte, nem do amontoado que no fundo fomos e somos, porque ainda que sejam feitas as nossas vontades teimam em nos conservar. Desenterrar, separar e ventar pela praia inteira e pôr-se em armas, resistente, renitente. Mais além das linguagens que constroem formas e não logram ser gozadas. Ir. E quando o caminho se bifurcar, menear os ombros e não se preocupar, porque sabe-se onde começa e quando termina.

Não permitir que seja um pacto ou tenha muita duração. Depois que rui o amor ainda ecoa, e nós, sua contra-voz, nos disfarces que farejamos deitamos os braços nas necessidades de um outro que se diz eterno. Logo, ligar-se aos vivos ou explodir-nos compassivos? Eis a coragem. Que cada um durma com o seu mais tarde, ou ande mais cedo, pois se para uns estar dentro é uma jaula, para os que caminham sobram janelas.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Larghetto

foto Leslie Lyons
Isto não é para ser escrito, mas querido. Entre astrologias e insetos de verão, numa relojoaria quase precisa e resistente. Portanto isto jamais será esquecido, mas pertencido, ligado aos sonhos vastos e que em nós não se esgotam. Os vôos que nos despejamos nos trouxeram a lugares pouco conhecidos, porém sempre desejados, bem-aventurados de coisas imaginadas porque sempre voamos neles sem idade, descalços, límpidos de tudo que extingue a permanência de alguém dentro de alguém.

Como então deixar de alimentá-la senão com a alma forrada de despojadas concepções? Se assim não o fizesse as sobras ficariam precárias e artificiais que esfriariam quaisquer pensamentos, dias vazios, vontades. Ah, nós não prestamos compromissos, preferimos engolir tudo com o vinho nobre que cultivamos na profundidade de nossas inquirições. Na largueza de um ensaio que insiste por nomes, mas nós preferimos os movimentos, ventanias, tocaiados em nossa eterna danação.

A realidade nos lima, assim como os astros, e a nossa geometria é pequena frente à voragem de um mundo que insiste nos tragar ao núcleo desnaturado de rostos, compromissos e modelos, tentando se justificar através de um alfabeto gélido de suspiros e ecceidades. E nós não entendemos.

O que nos salva é um contágio só, puro acabar-se de traços, silêncios e gemidos até evaporarem-se nos excessos do que nos mantém a esse lugar. Se nos mordemos ou nos alastramos com fé silenciosa sobre nossas almas, é porque tudo em nós tornou-se plano de navegação por dentro. E nessa permuta vamos nos requerendo sem desafogo um retrato de alguém que na largueza da sua condição também não quer sofrimento.
Nos custa o apego, mas também o desapego, por isso nossos mortos não se esgotam mesmo quando distantes do vasto sonho que gostaríamos por inteiro. Apaixonados por enredos capturamos tudo que existe neles. Parte de um texto, algum cheiro, vozes, sobrancelhas. Com diálogos nos descontrolamos. Ficamos parados olhando os lábios, o nariz, o queixo e depois acompanhamos nossa mirada com serenidade e beijos. Sem fúria de línguas, mas curtindo a passada espessa sem estardalhaço. Talvez por deficiência nos alimentamos de propósitos difíceis, mas isso não nos torna infelizes. Primeiro as línguas, as indefinições do pensamento, depois, e sem melancolia, o regurgitar de náuseas misturando-se ao tempo.
Quem não confessa essa posse se obriga a não partir para sempre, fenece de cansaço antes que brote uma nova eternidade ou encontra uma saída furiosa coberta de pretextos. No meu caso, eu confesso, eu adorei ter sido possuído por você para sempre.
Portanto, me diga, existe alguém que admita ter sido possuído assim completamente? De uma possessão que não tira proveitos e nos deixa chupados e desprovidos de uma biografia que explicaria quem fomos um dia? São poucos, embora muitos se arranhem nessa vegetação quase sempre arrasada pelos ventos. Vão-se as flores, mas ficam os cheiros só para não nos esquecermos das ânsias subterrâneas que nunca entendemos.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

No Osso


foto Andrej Dragan

Incomoda porque é desproporcional. Não toma conhecimento porque não pertence ao tempo, e o que sobra de algumas respostas vai para o termo ou desce ao começo. A tristeza, essa gosma peçonhenta que escorre pela cara, e de quem a alma muitas vezes é vassala, rege sua sombra e não permite paga, porque tem a vida longa e prefere se consumir até ficar enferrujada como um punhal nas costas, mas nos deixando vivos para desfrutar do sangrado. Come tudo ou gruda à margem do que nos desenlaça como solda disfarçada de mordaça, nos entorta e nos dilui em histórias que se desprenderam e não voltam.

Não nos larga e em geral bate, esmurra os amores findos e as aparências de outros que nadam em nós com os corações fora d’água. Por eles nenhuma paixão ou sede, nenhuma condena ou sorte, a não ser a de experimentarmos suas vozes em sorvos que se apagam. Ultrapassá-la poderia ser o começo de outra história, menos alarmante, mas que nem nós acreditamos porque ela nos faz perder a memória, pra de repente brotar ilesa sem saber explicar em que espécie de tristeza mergulhará o fim dessa outra historia.

Entramos no seu limite tentando nos revelar, e o que há muito está morto passa da penúria ao júbilo de gozarmos um pesadelo transmutado em sono acordado. Até o azedume se prova gostoso, e o que vamos beijando não nos fornece a senha para deixarmos de ser deserdados. E nesse torpor que é humano, o silêncio fica perfeito e não quer, não quer mais ser incomodado por tudo que gira em torno, ou faz barulho e não se desprende porque não sobe ou é puro invento.

Somos mortais porque adoramos expiar o que nos deixa perplexo. Sob escusas nos matamos e por falta de abuso não vivemos. Cuspimos fora as senhas, preferindo nos trancar em celas que criamos com idéias sempre iguais de que somos mortais porque morremos no dia que deixamos de ser suficientes, sem respaldos para existirmos feroz ou docemente. Preferindo os vultos aos meandros, o ar de quem ficou sem mar ao que se despede com limo nos dentes.

Mas, da mesma forma que a tristeza destrói nosso senso, catalogando padrões, espantos e solidões, nesta incômoda retração não poderíamos fatiar a carne, a alma e a rebelião? Perscrutando nas perdas alguns ganhos, outros equilíbrios que o nada ensina, sem jamais entrar em armistício com o que nos atinge na fundura desse canto?

Pelo que chega além dessa falta de apetite grande, enquanto eu empurrar para adiante o luto, o poente, o que mais se retirar deixará a alma vacante. E no nada que restar poderei cravar as coisas que quero sem nunca ter sonhado com elas, ser senhor absoluto da minha despossessão e aí sim, no osso, voltar a ter tudo quiser sem nunca mais sofrer o risco de perdê-las.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

É Verbo?

foto Misha Gordin
Devo viver entre os homens repetindo palavras que lhes pertencem, gestos que admiram e conceitos que nos desaprendem. Permanecer no meu corpo ardendo através da vida ou junto de alguém que também arda para não me deixar molhar com esses aprendizados que a gente nunca entende. Escavar minha boca em busca de inventos que me sustentem, me protejam e me acordem desse ilusório silêncio. Estar disposto a pagar um alto preço por não mergulhar nas gargantas desses loucos e fingir, só fingir que os compreendo. E assim, assim continuar vivendo.

E ainda que guardado dessas blasfêmias sei que canalhas também envelhecem. Possuem famílias, não tem revezes porque são fortes, não choram e estão sempre cobertos de uma razão adubada com sementes eruditas. Cintilam, e pela magia das penas, planam. Aqui, ali, talvez no mundo inteiro, orando, uivando aos corvos, adustos e sem ressentimentos pelos vôos que empreendem.

Mas das coisas inventadas, e como lançando flores às covas desses coerentes, quero apenas os meus vínculos apaixonados, aqueles, os dos atalhos desmedidos, crendo que a noite vem só porque o dia se esconde, e depois sair à rua de colete novo e com os cabelos esvoaçados de tanto existir. A procura de uma luz que me queime. Queime tudo, menos eles, mas a mim, apenas.

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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Insurreição

Itacaré, Bahia foto Ilidio Soares
Quem nasceu entre as pedras e se despojou dos limos não precisa ralar em precipícios. Não utiliza paráfrases para explicar os ventos nas ventas, venta e isso basta. Salta profunda e silenciosamente nos penhascos desatando sóis, petrificando tempestades e rasgando as horas redondas e seus atos irreais. Com os punhos golpeia a porta do céu que é um outro céu menos dissoluto e mais anárquico. E no extenso desse imaginável paraíso se agranda, porque a luz é outra e a matéria é um mito. E nessa hora podemos lamber texturas cruas, salivosas, que a boca não vê, mas devora, porque agora a alma é porosa e sorve os sumos vindos de outros fundos.

Do sinistro que afoga versos e recheia jazigos, nada. Depois que se desgarra o insurgente empoeira os vestígios com outras coerências. Se vozes de mando mandarem, reverdece. Se a medida for estreita, prolonga o abismo para reacender outros começos. E assim vai, brotando ao lado da loucura que ainda não tem nome, carece de análise, só fundura e nervura grudada a uma fé libertária, cujo enredo dispensa rosto para seguir consagrada. Não é o faro que avança pelo mar de medo, não é a venda imóvel e fria que enaltece a miragem, mas a paisagem da mente que mata a morte e desperta o calor que afronta a realidade. Uma fé sem ânsia de deuses e culpas prognosticadas, um terror para os solitários mas um devaneio pros muitos que vêm depois. Os indiscretos, os amáveis, os sensíveis para quem os beirais dos oceanos não são de areia, pedra ou desértica geometria, mas de lábios, aurora e palmeiras. Antes tão memória e agora, pela primeira vez e num único instante, trocando o clima do coração.

Beber azuis, dispensar devoções, passar de Curaçao, Monet e Borges, inclinar-se sobre balcões longínquos e pedir um lápis tropical repleto de outras cores e escrever novas meditações, independente do fogo movediço dos reis que vêm e vão. Ver estrelas, contemplar um trem que passa pela montanha com as luzes acesas, ler Garcilaso discordando de suas penas e alegrias, olvidar, e numa meia-noite vagabunda confessar-se unido a outras criaturas. Desaforar o abatimento temerário do unânime e durar, durar feliz, útil e sujo de luas, partitas e lírios.

Ah, se pudesse respirar com os olhos, esses que já saltaram, aprenderíamos mais com o cheiro do que com as convulsões que nos atravessam o sono, deitaríamos despertos para diluirmos todas as fotografias dos antigos pensamentos, e leríamos as palavras invulneráveis de um carrega-me contigo assim quando nos enchemos de anseios ao perceber que ainda não fomos.

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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mergulho


foto Katarzyna Widmanska

A Elisa Marques, a verdadeira autora


O esquecimento não é para sempre, é apenas um afastamento provisório dos detalhes das histórias penduradas em outros pensamentos; ou melhor, das coisas que seguem por fora e não acompanham mais o que me corre por dentro. Ah George, não é maldade, mas uma vontade tremenda pra ver direito esse momento bem junto aos olhos e não mais através de filtros que se inventam. E não é mágoa, engano fortuito ou injúria. Nada disso. Que importa se fomos companheiros, a ressurreição das carnes ou um anel de vento se agora o que eu preciso é me soltar do que se moveu por metáfora, astrolábio quebrado ou roldana de um verso?

Entre as minhas geografias, tenha certeza, você foi meu clima predileto, o único que fez balançar meus mapas e guiou meus vôos noturnos pelas cordilheiras. Portanto não me tome como uma esquecida vulgar, mas por uma mulher de cabelos curtos que no auge dos quarenta escolheu você como tema. E eu já tinha amado outros e outras, porém com você não houve aquela ambição exilável que acomete os relacionamentos. Nem tive medo das intrigas que me esquivaram dos vivos pra me aproximar dos aventureiros. Dos que nunca quiseram casa, passeios no zôo, mas resgate de sombras, azuis dos mares e muito, muito alumbramento. Por isso, George, eu não estou triste, nem fique você, agora está tudo aqui comigo, e a cada queda me ergo do que se vai escapando pra eu poder entrar de pé, inteira e feliz no túnel do meu poema.

Pela primeira vez estou cruzando as linhas que me separam daquilo que eu considerava pesadelo, e descubro entre a razão e a loucura a tal tênue fresta. Crianças subindo numa árvore, balões atingindo seus auges comigo no extremo desses cercos, com tudo me subindo em equilíbrio mais alto que essa árvore e mais leve que o ar desses hemisférios. Ah, George, se você visse a costa daquela ilha lá embaixo, vazando-me aqui por dentro, certamente concordaria que não há limite para os sonhos quando os misturamos às sobrevivências. Saberia que as pálpebras falam quando não é susto o que se desvenda sincero por onde nos movemos. Por isso, meu amor, meu dever agora é apenas comigo, sem as seduções dos velhos vôos que me dei quando não sabia o que procurava. Como ele é? Onde ele está? Ora George, inicia-se precisamente agora, no ponto onde eu começo a me esquecer de você e ultrapassar inclusive a mim mesma.

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