segunda-feira, 18 de outubro de 2010

La Cura de Don Salvador


foto Alfred Stieglitz

Me chamo Salvador Esteban de Jimenez, sou o que por aqui costumam apelidar de o justiceiro de Deus, o Inefável. Sou seu melhor escudeiro, o mais valoroso, tão importante que às vezes tenho vontade de me deixar matar só para voltar a me encontrar com Ele.

Meu ofício é verter o sangue do peito dos esconjurados, cornos irresolutos, fracos e impotentes, à bala ou através do meu florete preciso e incomparável. Nos momentos que não sou chamado para extinguir dessas pousadas os amores-próprios, suas tolices e as costumeiras vaidades, me dedico ao beletrismo de maneira mais inocente que nos duelos, que sempre me exigem um pouco mais de esforço para redesenhar monstruosidades em formas de caridades. Contudo posso garantir que o meu trabalho é muito eficiente, melhor que nas belas artes, por isso sou convocado por Ele quando é preciso prescrever o bem e interditar o passado.

Meu receituário é simples. Na algaravia dos sentimentos confio apenas no que é sólido ou mais resistente, de tal sorte que freqüentemente são os vacilantes quem sucumbem para eu seguir adiante na minha faina de extirpar os outros tremores que sobram. Por isso àqueles que cambaleiam suplico que não me encarem, sequer pensem em mim, se não quiserem resolver as dúvidas que não logram esclarecer por timidez ou falta de coragem. Não me considero um pecador, mas um justo, o que não permite que o recheio das vontades escape através de reparações inúteis por mulher ou amantes, mãe ou filho, filha ou pai, e toda essa cadeia estúpida de sustentáculos. Quando alguém é feliz, é feliz sem remorsos, independente das dissensões que lhe são jogadas na cara, porque o fútil é cem vezes pior que o miserável, mais culpável porque só se ofende com palavras e nunca com a verdade. E a verdade para mim é uma só: as imperfeições do mal são as perfeições do bem, na família ou fora dela. Portanto carecem de defesas os que se deixam amargurar pelas paixões ou momentâneos estremecimentos; e honestamente, por tudo que tenho visto por aqui, afirmo que são os costumes que variam no tempo que imputam seus sins e nãos as coisas que consideramos ofensas. Por isso eu, Salvador Esteban de Jimenez, não desapareço enquanto houver alguém disposto a combater o tempo com melancolia ou fátuo sofrimento, justificando-se como cornos, bastardos ou românticos baratos, pois meu ofício não é contra os costumes, mas fazer com que esses cabrões se adaptem a eles.

No fundo meu trabalho faz com que todos entendam que ninguém pertence a ninguém, só a Deus ou quando muito a si mesmos, porque a verdadeira coragem nesse pedaço de mundo reside em amar sem desculpas ao que se opõem como desígnio ou perfeição, sempre com precaução pelos instantes que cedo ou tarde desaparecem, pois eu mesmo nasci de algo assim, de uma luxúria fingida e que me garante a certeza dessa sentença.

Minha mãe chorava no meio da rua e meu pai fornicava outra mulherinha, enquanto eu escapava do bicho-cabeludo que habita entre as pernas de todas as fêmeas. Nem por isso sou infeliz nem minha mãe uma rameira. Simplesmente meu pai se despediu das suas curvas, das antigas delicias para ir morrer noutra boquinha pedindo beijos, beijos novinhos de uma viuvinha mais destemida, sem cinzas no coração que só envelhecem como minha mãe e seu contumaz desabrasamento. Sendo assim, e diante dessa situação, a perspectiva do meu futuro se transformou radicalmente, e apesar de, inicialmente, ter vindo parar aqui no susto, logo me adaptei a nova visão e consegui entender que a minha transformação era também uma forma de ampliação. De novos horizontes, novos adestramentos para arquitetar planos, compromissos e prazeres.

Por isso hoje sou o mais solicitado desse ayuntamiento para livrar as gentes dos seus injustificados padecimentos. Não há nas imediações alguém mais livre e mais graduado para vencer os vestígios das ilusões que insistem rondar esses terrenos. Portanto, muito cuidado para não transformarem suas vontades em infortúnios ocultos ou falsas recompensas. Basta que me fitem desconfiados ou cagados de medo que eu diferencio muito bem os inquietos dos tementes. Jamais duvidem disso, pois, quando vocês dobram a esquina ou saem dos conventos, lá sempre estarei, alegre, falante e com as ferramentas entre os dedos que certamente irão lhes salvar dos seus desterros.

Eu, Salvador Esteban de Jimenez, firmo, dato e dou fé.

Igreja de San Agustín, Valladolid, 1813.

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Iluminismo de Resultados


Marques de Pombal


O terremoto que devastou Lisboa na manhã de 1º de novembro de 1755 alcançou 8,5 graus na escala Richter. Logo em seguida uma "tsunami", raríssima no oceano Atlântico, terminou o mórbido serviço. A população de Lisboa era de 170 mil pessoas. E o terremoto ceifou entre 10 a 15 mil vidas. A destruição foi enorme. Cinqüenta e cinco conventos e mosteiros danificados, cais afundado e o palácio real destruído. Eram 10h00 e era Dia de Todos os Santos, portanto grande parte da população participava de serviços religiosos. Muitas igrejas simplesmente desabaram sobre as congregações durante a missa.

Duas semanas após o terremoto, o cônsul britânico em correspondência a Londres relatou: "O primeiro abalo começou as 9h45, e, na medida em que pude avaliar, durou seis ou sete minutos, de modo que em um quarto de hora esta grande cidade estava em ruínas. Pouco depois começaram vários incêndios, que queimaram durantes cinco ou seis dias. A força do terremoto parecia estar exatamente sob a cidade. Dizem que ele se descarregou no cais que vai da Casa da Alfândega em direção ao palácio real, que foi totalmente arrasado e desapareceu. Na hora do terremoto as águas do Tejo ergueram-se 20 ou 30 pés".

O caos foi geral. Até o rei, D. José I de Bragança, que estava ausente e residia em Belém, ficou aterrorizado pelo resto de sua vida, evitando, a partir desse dia, dormir em qualquer construção de pedra. Na prática D. José I era um rei ausente, sem grande interesse pelas coisas do governo e obcecado por caça e ópera. Se o seu primeiro ato após o terremoto foi mudar-se para os jardins do palácio de Belém, em abrigos temporários, os do seu primeiro ministro foram mais duros, eficientes e históricos.

Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), o Marquês de Pombal, ocupava a pasta de primeiro ministro do rei e reagiu no primeiro momento com a famosa frase: "Enterrem os mortos e alimentem os vivos". Numa caligrafia delicada Pombal baixou três atos. O primeiro era livrar-se dos mortos para evitar doenças, o segundo impor teto para o preço do pão e assim alimentar a população, e o terceiro, impor a ordem pública.

A destruição de Lisboa foi tal que a remoção dos corpos tornou-se essencial para evitar a disseminação de doenças e peste. Pombal convenceu então o patriarca de Lisboa a autorizar que os corpos fossem recolhidos sem cerimônia, colocados em barcos, enviados para o Atlântico e despejados no oceano sem os habituais ritos fúnebres. Para conter a ordem pública, Pombal autorizou juízes a reagirem instantaneamente em caso de saque ou assassinato. Ordenou que fossem armadas 80 forcas por toda a cidade, onde os flagrados saqueando e cometendo outros crimes eram enforcados sumariamente.

Discussão Intelectual: O terremoto de Lisboa ocorreu num momento crítico durante o Iluminismo, quando já se levantavam dúvidas sobre a crença excessivamente otimista na capacidade de conquista e realização da humanidade. O quebra-pau intelectual mais notório da época foi entre Voltaire e Rousseau. No seu "Poema sobre o Desastre de Lisboa, ou uma Análise do Axioma 'Tudo está Bem'", Voltaire demonstrou uma visão bastante pessimista do ocorrido: “Que crime, que erro cometeram essas crianças/ Esmagadas, sangrando sobre o peito de suas mães?/ A Lisboa caída bebeu mais fundo no vício/ Que Londres, Paris ou a ensolarada Madri?"

Rousseau, chocado com o que Voltaire escreveu, reafirmou as causas naturais dessas catástrofes e numa carta protestou: “Você teria preferido que esse terremoto houvesse ocorrido no deserto. É possível duvidar que eles não ocorram nos desertos? Mas não falamos destes, porque não causam danos aos cavalheiros que vivem nas cidades, as únicas pessoas que levamos em consideração”.

Arquitetura de Resultado: Mas se o terremoto de Lisboa inflamou um debate filosófico na Europa, em Portugal a reação foi muito mais prática. O fato é que a destruição da cidade oferecia grandes oportunidades de negócios para engenheiros e arquitetos. Escoceses, italianos, franceses se arvoraram em convencer Pombal dessa ou daquela solução para a reconstrução da cidade. Famosos, ricos e não menos vaidosos, os arquitetos europeus disputaram a tapa um contrato com a corte portuguesa.

Como a situação era de emergência, Pombal chamou os engenheiros militares portugueses para oferecerem suas soluções de reconstrução de Lisboa. Entre três deles, um se destacou. Manuel da Maia, que em 1755 tinha quase 80 anos. Todos eram profissionais experientes, acostumados a supervisionar a construção de edifícios civis e fortificações militares. Contudo, Pombal deu a Maia a tarefa de elaborar o que ele chamou de "dissertação". A "dissertação" de Maia examinava uma série de propostas sobre as possíveis opções de reconstrução. Incluíam que tipo de detritos deveria ser utilizado para aterrar as áreas baixas da cidade, tamanho dos edifícios em relação às ruas, esgoto imune a inundação etc. Até mesmo uma espécie de massa com ferro à prova de terremoto foi sugerida. Enquanto o projeto era elaborado, Maia pediu a Pombal que na área a ser reconstruída fossem proibidas novas edificações, ação ou venda de propriedades até o plano ser posto em prática. Pombal, numa canetada (ou seria penada?), baixou um decreto do jeitinho que Maia pediu. E foi além. Como o conceito do plano era criar um ambiente urbano mais sanitário e mais saudável para a cidade, Pombal chamou para o projeto um português residente em Paris, um cristão-novo, de nome Antônio Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), aluno do químico, botânico e clínico H. Boerhaave (1661-1736).

Pombal, o antidemocrático: Em 1750, coincidindo com o planejamento pós-terremoto, Pombal começou a enfrentar uma oposição crescente da antiga aristocracia e da ordem jesuíta, ambas influentes no reinado anterior, de D.João V, mas totalmente marginalizadas por Pombal. Devido à oposição aristocrática ter percebido que para remover Pombal era necessário remover o próprio rei, em 1758 um atentado contra D. José I, o assustado, teve lugar. Mas o rei escapou. E Pombal, aproveitando-se da ocasião, voltou-se com total inclemência contra as duas grandes famílias aristocráticas de Portugal, a família Távora e a do duque de Aveiro, envolvidas no complô. E de lambuja usou o frustrado atentado para atacar os jesuítas.

Uma vez que as duas principais fontes de oposição foram removidas, Pombal passou a usufruir uma autoridade absoluta no Estado português. As propriedades confiscadas dos jesuítas e das famílias envolvidas no atentado ajudaram a financiar muitos dos projetos favoritos de Pombal. Sem precisar tocar um só dedo nas minas de ouro e diamantes do Brasil. Para felicidade de todos e principalmente da Inglaterra.

Dizer que Lisboa conseguiu ser reinventada no final do século 18 graças a um poder muitas vezes impiedoso do Marquês de Pombal é acertar cem por cento. O uso do Estado, aliado a posturas ditas antidemocráticas mas não menos eficientes, fez com que uma cidade fosse radicalmente transformada das cinzas de 1o de novembro de 1755. Pombal é isso. Um assunto polêmico até os dias de hoje. Quem não gosta de um Estado eficiente? A questão é: como essa eficiência vem empacotada?

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sábado, 28 de novembro de 2009

A Senha

foto Ton Dirven
Jorge e eu levamos uma vida tão normal, e ao mesmo tempo tão repleta, que as minhas cunhadas conselheiras custam acreditar que ela seja uma mostra de ternura e tesão misturada ao tempo. Gosto dele desproporcionadamente, aliás, sempre gostei, e ele também, até porque se ele não gostasse, metade dele eu veria como sombra e a outra como cópia barata dos consolos que as minhas cunhadas têm. O Jorge, mesmo cansado, esgotado até na inteligência, é o meu país. O único que eu habito porque não tem fronteiras e entende o meu idioma, ora quando ele é sussurrado no seu ouvido, ora quando eu berro de prazer. Em resumo, somos um cochicho gostoso e bem afinado, ele porque se sente possuído, eu porque me sinto abastada.
Mas eu não me iludo, independente das minhas cunhadas. Em geral toda felicidade engana a quem tenta lhe dar um status definitivo. Se hoje o Jorge é a matriz da nossa fala, amanhã eu posso ter o desejo de aprender outro idioma. De fúrias e mais felicidades na cama, ou por enredos lactescentes que venham servir-me de casa. E como eu sei que o Jorge é um monoglota convicto, assim como eu, hoje, minha alegria pode querer se desenrolar numa outra língua que agora eu desconheço, mas jamais garantir que ela não exista.
Todas as almas felizes se agrupam, assim como a do Jorge e a minha atualmente, mas quando se descobre a senha para se desvelar a dos outros viventes, todas as fronteiras deixam de ter barreiras e infeliz passa ser aquele que não tem, não quer ou perdeu a senha. E é aqui onde eu discordo das minhas cunhadas. O silêncio de uma afortunada não significa conspiração a favor do prazer que morreu, porque reclamar dos ferrolhos sem conhecer as chaves que abririam novas portas, é continuar presa por vontade só pra farejar apenas o cheiro.Hoje eu posso afirmar que no dia que o Jorge morrer eu morrerei em seguida. Mas o que aconteceria se eu morresse primeiro, não por morte matada ou morrida, mas por conceito? Fosse eu a sua falecida por haver, sem querer, despertado em mim outras linguagens que o Jorge não gosta e, portanto, jamais entenderia? Nessas horas eu penso que as minhas cunhadas têm razão, melhor ficar em Toledo do que fugir para Madrid. Para quê se meter noutras terras se as daqui ainda têm bom cheiro? Só pode ser por conta da mania que tenho de achar que a nossa vida é normal e ao mesmo tempo feliz.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Paráfrase Do Oblívio


foto Jerry Uelsmann

Noite de insetos elétricos, insubmissos, de raças errantes migrando entre o fim e o reinício dos dias, em ondas que se dilatam e arrebentam dentro do que nos conserva e nos mantém, franzinos, como sílabas caídas de um alfabeto roto. Num abismo que é outro abismo, mais alto e reservado aos que queimam por dentro e não basta. Porque falta a coragem em seu estado mais sublime, que é do enfrentar o tempo com um ruído idêntico ao do universo que se desgarra e só cola quando as asas para seguir avançando se descolam.

E para se ir adiante é necessário decifrar a relojoaria erótica que repousa nas tardes de domingo, no alaranjado poroso de uma tangerina, nos pés de uma mulher descalça. Pela magia dos seus traçados ou porque se entreviu o contorno dos desejos que vêm depois, numa geometria cujo engenho é não deixar nada aquietado, num movimento explosivo de coisas desdobrando-se em cenários, cheiros e gentes dentro da gente.

Essa multiplicação fantástica que desampara o solitário e abrange quem não se encerrou em arquivos sempre esteve por aqui, desde o princípio, como a luz, mas por algum motivo alguns preferem chamá-la de memória, outros de olvido.

Contudo, se em alguém há um vazio e ele é habitado por palavras que se acabaram ou imagens de fastio, só pensar não inunda a vida que vai sumindo. Melhor seria vomitar em partes; primeiro os dejetos dos vocábulos, depois os álbuns de sílex. Entreabrindo-se até o fêmur e ordenando que lhe arranquem a pele e lhe comam o fígado. Junto com o soluço das noites mal dormidas e o desgosto por saberem-se esquecidos. E já sem invólucro e ao relento, fora da torre onde se mantinham vivos, melhor deixar que os insetos devorarem os restos daquilo que chamavam de abrigo.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Recesso Íntimo


foto Dorota Pawilowsk

É preciso aproveitar a fresta, a aba, o céu tão baixo e as formigas. Isso, as formigas. Nos seus reclamos e haveres. Ocupar-se das trilhas onde se firma o amor, encomendar tempos permeáveis e se expor. Não sitiar nenhuma parte e construir uma lei nova, uma regra olfatosa entre corredores que o outro consumiu nas leis que se extinguiram. Mudar as trancas da porta, os segredos, e neles não se bastar. Ir, não depender da sorte, nem do amontoado que no fundo fomos e somos, porque ainda que sejam feitas as nossas vontades teimam em nos conservar. Desenterrar, separar e ventar pela praia inteira e pôr-se em armas, resistente, renitente. Mais além das linguagens que constroem formas e não logram ser gozadas. Ir. E quando o caminho se bifurcar, menear os ombros e não se preocupar, porque sabe-se onde começa e quando termina.

Não permitir que seja um pacto ou tenha muita duração. Depois que rui o amor ainda ecoa, e nós, sua contra-voz, nos disfarces que farejamos deitamos os braços nas necessidades de um outro que se diz eterno. Logo, ligar-se aos vivos ou explodir-nos compassivos? Eis a coragem. Que cada um durma com o seu mais tarde, ou ande mais cedo, pois se para uns estar dentro é uma jaula, para os que caminham sobram janelas.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Larghetto

foto Leslie Lyons
Isto não é para ser escrito, mas querido. Entre astrologias e insetos de verão, numa relojoaria quase precisa e resistente. Portanto isto jamais será esquecido, mas pertencido, ligado aos sonhos vastos e que em nós não se esgotam. Os vôos que nos despejamos nos trouxeram a lugares pouco conhecidos, porém sempre desejados, bem-aventurados de coisas imaginadas porque sempre voamos neles sem idade, descalços, límpidos de tudo que extingue a permanência de alguém dentro de alguém.

Como então deixar de alimentá-la senão com a alma forrada de despojadas concepções? Se assim não o fizesse as sobras ficariam precárias e artificiais que esfriariam quaisquer pensamentos, dias vazios, vontades. Ah, nós não prestamos compromissos, preferimos engolir tudo com o vinho nobre que cultivamos na profundidade de nossas inquirições. Na largueza de um ensaio que insiste por nomes, mas nós preferimos os movimentos, ventanias, tocaiados em nossa eterna danação.

A realidade nos lima, assim como os astros, e a nossa geometria é pequena frente à voragem de um mundo que insiste nos tragar ao núcleo desnaturado de rostos, compromissos e modelos, tentando se justificar através de um alfabeto gélido de suspiros e ecceidades. E nós não entendemos.

O que nos salva é um contágio só, puro acabar-se de traços, silêncios e gemidos até evaporarem-se nos excessos do que nos mantém a esse lugar. Se nos mordemos ou nos alastramos com fé silenciosa sobre nossas almas, é porque tudo em nós tornou-se plano de navegação por dentro. E nessa permuta vamos nos requerendo sem desafogo um retrato de alguém que na largueza da sua condição também não quer sofrimento.
Nos custa o apego, mas também o desapego, por isso nossos mortos não se esgotam mesmo quando distantes do vasto sonho que gostaríamos por inteiro. Apaixonados por enredos capturamos tudo que existe neles. Parte de um texto, algum cheiro, vozes, sobrancelhas. Com diálogos nos descontrolamos. Ficamos parados olhando os lábios, o nariz, o queixo e depois acompanhamos nossa mirada com serenidade e beijos. Sem fúria de línguas, mas curtindo a passada espessa sem estardalhaço. Talvez por deficiência nos alimentamos de propósitos difíceis, mas isso não nos torna infelizes. Primeiro as línguas, as indefinições do pensamento, depois, e sem melancolia, o regurgitar de náuseas misturando-se ao tempo.
Quem não confessa essa posse se obriga a não partir para sempre, fenece de cansaço antes que brote uma nova eternidade ou encontra uma saída furiosa coberta de pretextos. No meu caso, eu confesso, eu adorei ter sido possuído por você para sempre.
Portanto, me diga, existe alguém que admita ter sido possuído assim completamente? De uma possessão que não tira proveitos e nos deixa chupados e desprovidos de uma biografia que explicaria quem fomos um dia? São poucos, embora muitos se arranhem nessa vegetação quase sempre arrasada pelos ventos. Vão-se as flores, mas ficam os cheiros só para não nos esquecermos das ânsias subterrâneas que nunca entendemos.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

No Osso


foto Andrej Dragan

Incomoda porque é desproporcional. Não toma conhecimento porque não pertence ao tempo, e o que sobra de algumas respostas vai para o termo ou desce ao começo. A tristeza, essa gosma peçonhenta que escorre pela cara, e de quem a alma muitas vezes é vassala, rege sua sombra e não permite paga, porque tem a vida longa e prefere se consumir até ficar enferrujada como um punhal nas costas, mas nos deixando vivos para desfrutar do sangrado. Come tudo ou gruda à margem do que nos desenlaça como solda disfarçada de mordaça, nos entorta e nos dilui em histórias que se desprenderam e não voltam.

Não nos larga e em geral bate, esmurra os amores findos e as aparências de outros que nadam em nós com os corações fora d’água. Por eles nenhuma paixão ou sede, nenhuma condena ou sorte, a não ser a de experimentarmos suas vozes em sorvos que se apagam. Ultrapassá-la poderia ser o começo de outra história, menos alarmante, mas que nem nós acreditamos porque ela nos faz perder a memória, pra de repente brotar ilesa sem saber explicar em que espécie de tristeza mergulhará o fim dessa outra historia.

Entramos no seu limite tentando nos revelar, e o que há muito está morto passa da penúria ao júbilo de gozarmos um pesadelo transmutado em sono acordado. Até o azedume se prova gostoso, e o que vamos beijando não nos fornece a senha para deixarmos de ser deserdados. E nesse torpor que é humano, o silêncio fica perfeito e não quer, não quer mais ser incomodado por tudo que gira em torno, ou faz barulho e não se desprende porque não sobe ou é puro invento.

Somos mortais porque adoramos expiar o que nos deixa perplexo. Sob escusas nos matamos e por falta de abuso não vivemos. Cuspimos fora as senhas, preferindo nos trancar em celas que criamos com idéias sempre iguais de que somos mortais porque morremos no dia que deixamos de ser suficientes, sem respaldos para existirmos feroz ou docemente. Preferindo os vultos aos meandros, o ar de quem ficou sem mar ao que se despede com limo nos dentes.

Mas, da mesma forma que a tristeza destrói nosso senso, catalogando padrões, espantos e solidões, nesta incômoda retração não poderíamos fatiar a carne, a alma e a rebelião? Perscrutando nas perdas alguns ganhos, outros equilíbrios que o nada ensina, sem jamais entrar em armistício com o que nos atinge na fundura desse canto?

Pelo que chega além dessa falta de apetite grande, enquanto eu empurrar para adiante o luto, o poente, o que mais se retirar deixará a alma vacante. E no nada que restar poderei cravar as coisas que quero sem nunca ter sonhado com elas, ser senhor absoluto da minha despossessão e aí sim, no osso, voltar a ter tudo quiser sem nunca mais sofrer o risco de perdê-las.

copyright©ilidiosoares2009